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Brasil: Política Indigenista - Um ano de absurdos.

ALAI, América Latina en Movimiento  2003-11-13

 As terras indígenas no Brasil deveriam ter sido demarcadas, em sua totalidade, há pelo menos 30 anos quando foi promulgada a lei 6001, também chamada de Estatuto do Índio. E posteriormente a "Nova Constituição", em 1988 determinou que num prazo de cinco anos o governo federal deveria demarcar todas as terras pertencentes aos Povos Indígenas. Passaram-se 15 anos e os sucessivos governos se negam a cumprir esta determinação constitucional.


O governo Lula, quando todos esperavam que resolvesse esta questão, age de forma idêntica aos seus antecessores, ou seja, negociando com as oligarquias regionais, em troca de apoio político, os direitos dos Povos Indígenas. Esta tem sido a tônica da política indigenista neste primeiro ano de governo.


Apresentaremos alguns exemplos que confirmam esta avaliação: a Funai, órgão indigenista responsável pela execução de uma parte da política, como a fundiária, está sendo submetida ao constrangimento de não funcionar por falta de interesse político do Palácio do Planalto, que também não permitiu o desenvolvimento de um processo de discussão a respeito da estruturação de uma outra política indigenista para o país e muito menos, que se rediscutisse o papel, função e objetivos do órgão indigenista; o governo se negou a discutir com os Povos Indígenas, suas Organizações e com as entidades de apoio novos rumos para a política oficial no que tange a assistência às comunidades em saúde, educação, atividades produtivas, bem como, sobre a demarcação das terras, pelo contrário, estabeleceu o canal de diálogo com os setores antiindígenas em Roraima, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Mato Grosso; o governo federal manteve, na assistência em saúde, a política de terceirização construída no governo FHC, com um agravante, o Ministério da Saúde quer estabelecer a terceirização através de convênios com as Oscip, a conseqüência disso é que todas as entidades prestadoras de serviço (ONGs) terão que se adequar ao modelo transformando-se em entidades empresas; o Ministério da Justiça negociou a redução da terra indígena Baú, do povo Kayapó e pretende usar este expediente com relação a outras terras como Cachoeira Seca, no Pará, Raposa Serra do Sol, em Roraima, Xokleng, em Santa Catarina; no sul do Brasil, terras minúscula dos Kaingang e Guarani estão sendo objeto de negociações com os setores antiindígenas e nas quais pretendem desenvolver a política da compensação, ou seja, dar benefícios assistenciais aos índios e menos terra demarcada ou troca (permuta) de terras tradicionais por áreas devolutas distantes do que o Ministério da Justiça caracteriza como "focos de conflitos" entre índios e brancos; a ameaça da Casa Civil da Presidência da República de mudar a sistemática de demarcação, para propiciar a participação de políticos, militares e outros setores contrários aos Povos Indígenas na definição do que são terras indígenas e quais devem ser demarcadas; a manutenção e edição de decretos e portarias que permitem o livre trânsito de militares nas terras indígenas é outro fator preocupante e gerador de conflitos e que o governo federal tem se negado a discutir com os Povos Indígenas e seus apoiadores.


Vale ainda destacar que neste ano foram assassinadas 24 lideranças indígenas. Muitas das mortes ocorreram em função da luta pela terra e outras pelo processo de intolerância e discriminação contra os povos indígenas, de modo especial, nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, regiões onde se consolida um clima de preconceito similar ao nazismo de Hitler. Três dos assassinatos demonstram com perfeição a relação cruel e intolerante estabelecida com os povos indígenas: Leopoldo Crespo Kaingang foi morto a pontapés e pedradas enquanto dormia, Adilson Kaingang teve a jugular cortada e sangrou até a morte enquanto dormia e Geam Kaingang foi espancado, estuprado, teve os olhos furados e a cabeça esmagada.


O que o governo tem feito diante deste brutal quadro de violência? Não existe, ao que tudo indica, reação governamental, pelo contrário, passa a impressão de que esta violência é natural e faz parte de processos anteriores, ou seja, culpam governos e administradores do passado. No entanto, a violência é o cotidiano do atual governo.


Neste contexto de tantas omissões e repetições de políticas nefastas cabe um alerta: ou o governo se deixa orientar pela perspectiva da construção de um modelo de nova sociedade ou se transformará no maior escândalo político de todos os tempos, configurando-se no estelionato eleitoral, expressão tantas vezes proferida por candidatos na recente campanha à Presidência da República. A traição aos compromissos históricos com as causas sociais e populares é a pior receita política possível, porque o tempo de um mandato governamental passa rapidamente mas a memória traída perpetua-se.


Chapecó, 13 de novembro de 2003.


Ivan, Roberto e Jacson


Cimi Sul Equipe Chapecó.

 

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